domingo, 12 de junho de 2011

CARTA DO CACIQUE MUTUA SOBRE BELO MONTE

Recebi a carta abaixo atráves da Rede Mineira de Educação Ambiental. Acho importante divulgar para reflexão de todos. Não imagino o que os povos atingidos pela construção de Belo Monte e tantas outras Usinas ou Barragens passam, sem contar com a grande destruição ambiental!

"Carta do Cacique Mutua (dos Povos Xavantes) a todos os povos da Terra

O Sol me acordou dançando no meu rosto. Pela manhã, atravessou a palha da oca e brincou com meus olhos sonolentos. O irmão Vento, mensageiro do Grande Espírito, soprou meu nome, fazendo tremer as folhas das plantas lá fora. Eu sou Mutua, cacique da aldeia dos Xavantes. Na nossa língua, Xingu quer dizer água boa, água limpa. É o nome do nosso rio sagrado. Como guiso da serpente, o Vento anunciou perigo. Meu coração pesou como jaca madura, a garganta pediu saliva. Eu ouvi. O Grande Espírito da floresta estava bravo. Xingu banha toda a floresta com a água da vida. Ele traz alegria e sorriso no rosto dos curumins da aldeia. Xingu traz alimento para nossa tribo.

Mas hoje nosso povo está triste. Xingu recebeu sentença de morte. Os caciques dos homens brancos vão matar nosso rio. O lamento do Vento diz que logo vem uma tal de usina para nossa terra. O nome dela é Belo Monte. No vilarejo de Altamira, vão construir a barragem. Vão tirar um monte de terra, mais do que fizeram lá longe, no canal do Panamá.

Enquanto inundam a floresta de um lado, prendem a água de outro. Xingu vai correr mais devagar. A floresta vai secar em volta. Os animais vão morrer. Vai diminuir a desova dos peixes. E se sobrar vida, ficará triste como o índio.

Como uma grande serpente prateada, Xingu desliza pelo Pará e Mato Grosso, refrescando toda a floresta. Xingu vai longe desembocar no Rio Amazonas e alimentar outros povos distantes. Se o rio morre, a gente também morre, os animais, a floresta, a roça, o peixe tudo morre. Aprendi isso com meu pai, o grande cacique Aritana, que me ensinou como fincar o peixe na água, usando a flecha, para servir nosso alimento.

Se Xingu morre, o curumim do futuro dormirá para sempre no passado, levando o canto da sabedoria do nosso povo para o fundo das águas de sangue. Pela manhã, o Vento me levou para a floresta. O Espírito do Vento é apressado, tem de correr mundo, soprar o saber da alma da Natureza nos ouvidos dos outros pajés. Mas o homem branco está surdo e há muito tempo não ouve mais o Vento.

Eu falei com a Floresta, com o Vento, com o Céu e com o Xingu. Entendo a língua da arara, da onça, do macaco, do tamanduá, da anta e do tatu. O Sol, a Lua e a Terra são sagrados para nós. Quando um índio nasce, ele se torna parte da Mãe Natureza. Nossos antepassados, muitos que partiram pela mão do homem branco, são sagrados para o meu povo.

É verdade que, depois que homem branco chegou, o homem vermelho nunca mais foi o mesmo. Ele trouxe o espírito da doença, a gripe que matou nosso povo. E o espírito da ganância que roubou nossas árvores e matou nossos bichos. No passado, já fomos milhões. Hoje, somos somente cinco mil índios à beira do Xingu, não sei por quanto tempo.

Na roça, ainda conseguimos plantar a mandioca, que é nosso principal alimento, junto com o peixe. Com ela, a gente faz o beiju. Conta a história que Mandioca nasceu do corpo branco de uma linda indiazinha, enterrada numa oca, por causa das lágrimas de saudades dos seus pais caídas na terra que a guardava.

O Sol me acordou dançando no meu rosto. E o Vento trouxe o clamor do rio que está bravo. Sou corajoso guerreiro, não temo nada.

Caminharei sobre jacarés, enfrentarei o abraço de morte da jiboia e as garras terríveis da suçuarana. Por cima de todas as coisas pularei, se quiserem me segurar. Os espíritos têm sentimentos e não gostam de muito esperar.

Eu aprendi desde pequeno a falar com o Grande Espírito da floresta. Foi num dia de chuva, quando corria sozinho dentro da mata, e senti cócegas nos pés quando pisei as sementes de castanha do chão. O meu arco e flecha seguiam a caça, enquanto eu mesmo era caçado pelas sombras dos seres mágicos da floresta. O espírito do Gavião Real agora aparece rodopiando com suas grandes asas no céu. Com um grito agudo perguntou: Quem foi o primeiro a ferir o corpo de Xingu? Meu coração apertado como a polpa do pequi não tem coragem de dizer que foi o representante do reino dos homens. O espírito do Gavião Real diz que se a artéria do Xingu for rompida por causa da barragem, a ira do rio se espalhará por toda a terra como sangue e seu cheiro será o da morte.

O Sol me acordou brincando no meu rosto. O dia se abriu e me perguntou da vida do rio. Se matarem o Xingu, todos veremos o alimento virar areia.

A ave de cabeça majestosa me atraiu para a reunião dos espíritos sagrados na floresta. Pisando as folhas velhas do chão com cuidado, pois a terra está grávida, segui a trilha do rio Xingu. Lembrei que, antes, a gente ia para a cidade e no caminho eu só via árvores.
Agora, o madeireiro e o fazendeiro espremeram o índio perto do rio com o cultivo de pastos para boi e plantações mergulhadas no veneno. A terra está estragada. Depois de matar a nossa floresta, nossos animais, sujar nossos rios e derrubar nossas árvores, querem matar Xingu.

O Sol me acordou brincando no meu rosto. E no caminho do rio passei pela Grande Árvore e uma seiva vermelha deslizava pelo seu nódulo. Quem arrancou a pele da nossa mãe? gemeu a velha senhora num sentimento profundo de dor. As palavras faltaram na minha boca. Não tinha como explicar o mal que trarão à terra. Leve a nossa voz para os quatro cantos do mundo clamou O Vento ligeiro soprará até as conchas dos ouvidos amigos ventilou por último, usando a língua antiga, enquanto as folhas no alto se debatiam.

Nosso povo tentou gritar contra os negócios dos homens. Levamos nossa gente para falar com cacique dos brancos. Nossos caciques do Xingu viajaram preocupados e revoltados para Brasília. Eu estava lá, e vi tudo acontecer.

Os caciques caraíbas se escondem. Não querem olhar direto nos nossos olhos. Eles dizem que nos consultaram, mas ninguém foi ouvido.

O homem branco devia saber que nada cresce se não prestar reverência à vida e à natureza. Tudo que acontecer aqui vai voar com o Vento que não tem fronteiras. Recairá um dia em calor e sofrimento para outros povos distantes do mundo.

O tempo da verdade chegou e existe missão em cada estrela que brilha nas ondas do Rio Xingu. Pronta para desvendar seus mistérios, tanto no mundo dos homens como na natureza.
Eu sou o cacique Mutua e esta é minha palavra! Esta é minha dança! E este é o meu canto!

Porta-voz da nossa tradição, vamos nos fortalecer. Casa de Rezas, vamos nos fortalecer. Bicho-Espírito, vamos nos fortalecer. Maracá, vamos nos fortalecer. Vento, vamos nos fortalecer. Terra, vamos nos fortalecer. Rio Xingu! Vamos nos fortalecer!

Leve minha mensagem nas suas ondas para todo o mundo: a terra é fonte de toda vida, mas precisa de todos nós para dar vida e fazer tudo crescer. Quando você avistar um reflexo mais brilhante nas águas de um rio, lago ou mar, é a mensagem de lamento do Xingu clamando por viver.

Cacique Mutua",

Xingu, Pará, Brasil, 08 de junho de 2011.

4 comentários:

Samuel Mendes disse...

Me parece uma visao muito romantica e idealizada. O texto tambem sugere algumas ideias que sao falsas, como a de que o rio vai morrer. Tambem avho falsa essa ideia de que os povos indigenas tenham uma melhor relacao com a natureza. A este respeito sugiro ler o texto "Um olhar antropologico sobre a questao ambiental" do Foladori.

Ecomeninas disse...

Olá Samuel, fico feliz em saber que vc gosta de participar e de comentar as nossas postagens! Obrigada! Quanto ao seu comentário, acho que vale a pena lembrar que a carta transcrita antes de ser romântica ou qualquer outra coisa traduz um ponto de vista de um índio, uma pessoa que possui uma visão de mundo e cultura completamentes diferentes da nossa. De toda forma, o que ele diz merece respeito, até porque ele tem um contato muito mais direto com a natureza no dia a dia do que nós. Com certeza sempre é válido estudar antropologia!

Leila Andrade de Carvalho disse...

Caro Rafael,
Tive a oportunidade de entrar em contato com alguns textos e profissionais da área da antropologia e sociologia da Ufmg e por isso acho agradeço a sugestão de texto e entendo o seu comentário. No entanto, como já foi dito, acredito que a nossa visão é um tanto encurtada a esse respeito. Por mais que eu queira não consigo imaginar o que todas os povos atingindos pela construção de hidrelétricas ou barragens passam, em especial os índios, tendo em vista sua relação com a terra, com a natureza. Realmente o rio não irá morrer, mas talvez naquele ponto em que o Rio é vital para aquela tribo deixará de existir. Acho que é importante ler a "Carta" com todo o simbolismo que carrega e acima de tudo tentar nos colocar no lugar de quem a escreveu. Abraços!

Mariana Gomes Welter disse...

Aproveitando o comentário do Sameul, sugiro a leitura do conteúdo do site: http://www.xinguvivo.org.br/
Nele poderemos perceber que a carta exposta no blog, de romântica não tem nada, ela dispõe na linguagem acessível aos índios,e a todos os brasileiros comuns, de uma realidade do que irá acontecer com o rio!
E para mim é lógico e indiscutível que os indíos têm uma relação mais próxima com a natureza... a estrutura cultural deles está toda relacionada com a natureza! É claro que houveram mudanças e cada vez mais eles sentem necessidade de se aproximar da nossa cultura capitalista. Esta situação é apenas demonstrativa de que todas as culturas estão em movimento (até mesmo a indígena!!!), assim como é algo inerente aos dias de atuais! Cada vez mais os índios são desprovidos de suas terras e dos recursos naturais que são sua fonte de sobrevivência, são por isso, obrigados a se inserir no mercado de trabalho para sua própria sobrevivência... Eu estive agora em Paraty e tive a infelicidade de ver vários indiozinhos vendnedo artesanato na rua e dormindo na rua, no frio das pedras daquela cidade. Será que essa foi uma escolha deles??? Ou eles foram impelidos a isso pela perda do espaço que tinham antes?